Ricardo Amorim Ricam Consultoria

Foto: Ricardo Correa.

Entrevista concedida pelo CEO da RICAM Consultoria, Ricardo Amorim, ao PME NEWS - Tema: "Panorama Econômico".

PME NEWS - Ricardo, suas previsões para a economia para 2016 são otimistas. Que fatores contribuirão para isso?

Ricardo Amorim

A principal razão para ser otimista com a recuperação da economia brasileira, a partir de algum momento em 2016, é que o maior fator de entrave a uma recuperação econômica ao longo de 2015 foi a crise política. E de uma forma ou de outra, a crise política vai ser resolvida em 2016. De duas uma, ou a Presidente consegue de alguma forma ter uma base de apoio que ela não foi capaz de formar ao longo do primeiro ano do segundo mandato para, assim, bloquear o processo de impeachment. Nesse caso ela vai ter mais força para finalizar o ajuste fiscal, que é o último grande ajuste macroeconômico necessário para que a economia brasileira entre numa recuperação, pelo menos, por 2 ou 3 anos. Ou a presidente vai ficar no meio do caminho. E a queda da presidente, com o vice-presidente tomando posse, ou que, na eventualidade de alguma das ações no TSE que derrubariam ambos, assim novas eleições seriam chamadas. Nos dois casos, com Temer, ou com novo presidente eleito, ambos teriam uma base de apoio político muito mais forte do que a presidente Dilma teve no primeiro mandato e teriam condições de finalizar o ajuste fiscal. E em paralelo, a inflação deve cair ao longo do ano, por conta de uma recessão muito grave que já tivemos em 2015 e que continuará, ainda que menos aguda, em 2016. E ainda a balança comercial melhorará, por conta de um dólar muito mais alto.

Em resumo, em algum momento de 2016, provavelmente entre o segundo trimestre, se a solução da crise política demorar mais, no pior das hipóteses, no terceiro trimestre, a economia deve recuperar-se e quando isso acontecer, ela virá com mais força do que a maioria acredita. Quando o pêndulo vai muito para um lado, ele volta com mais força para o outro, no caso, para um lado de recuperação.

PME NEWS - Quais os desafios que as Pequenas e Médias Empresas enfrentarão em 2016?

Ricardo Amorim

Pelo menos no inicio de 2016, os desafios para as Pequenas e Médias Empresas vão ser bastante significativos. O primeiro deles é a sobrevivência e isso exige a proteção do caixa, em outras palavras, evitar dívidas, porque a rolagem dessas dívidas deve ser difícil, a disponibilidade de crédito é pequena. Segundo, limitar custos, terceiro, tentar ainda assim, melhorar a qualificação da equipe, melhorar a entrega que é feita, seja de produtos, seja de serviços, então o grande desafio é inovar com menos recurso. O desafio não é pequeno. Por outro lado, o potencial de ganho para as empresas que conseguem fazer também é muito grande. Primeiro, porque a própria recuperação deve acontecer mais tarde no ano e vai criar oportunidades para aquelas empresas que conseguirem sobreviver a esse período mais difícil. Segundo, porque alguns dos concorrentes não vão conseguir sobreviver e isso fará com que a competição, quando a recuperação começar, seja menor do que ela era antes dessa crise, gerando mais oportunidades para as empresas que conseguirem chegar lá.

PME NEWS - Quais setores devem sair fortalecidos após a crise?

Ricardo Amorim

Alguns setores sentiram mais e outros menos a crise. Os dois que menos sentiram a crise foram o agronegócio e o setor de bens de luxo. O primeiro porque depende mais da economia externa do que a brasileira. E a economia mundial vai melhor que a economia brasileira. O agronegócio também se beneficia pela alta do dólar, porque os produtos que são exportados pelo agronegócio têm preços definidos em dólar, mas que, aliás, na maior parte dos casos, caíram ao longo de 2015, mas que, convertidos em real, em função de uma desvalorização muito forte do real e de uma alta muito significativa do dólar, esses preços subiram e isso significa mais rentabilidade, garantindo o desempenho melhor para esse setor. O segundo, o setor de bens de luxo, pela primeira vez em muito tempo, o seu preço no Brasil ficou mais baixo que no exterior, isso porque eles foram importados, quando o dólar estava em preço muito menor que os atuais e a consequência é que as empresas não repassaram, pelo menos, não integralmente a alta do dólar em preço de vendas dos produtos e esses produtos ficaram mais baratos.

Por outro lado, os setores que dependem mais de confiança e de crédito, foram os que mais sentiram. Em particular, o setor de construção, que teve uma queda de vendas que chegou a 50% e o setor de automóveis, que teve uma queda de vendas acima de 20%. Esses dois setores, quando a recuperação vier, devem ter uma recuperação mais forte. Toda cadeia associada ao setor de construção e ao setor automotivo será mais positivamente impactada.

PME NEWS - Por que o número de demissões vem caindo nos últimos meses, mas a taxa de desemprego só vem crescendo?

Ricardo Amorim

A maioria das pessoas não entende o que quer dizer taxa de desemprego. Ela representa apenas a parcela de pessoas que não está trabalhando e está procurando emprego, em relação àquelas que estão trabalhando. É importante esse entendimento, pois, ao longo dos anos de crescimento econômico até 2013, a queda de desemprego foi maior do que a geração de empregos, porque houve uma quantidade maior de gente que desistiu simplesmente de procurar emprego, porque passou a ter outras eventuais fontes de sobrevivência. Uma delas foi a bolsa família, mas o impacto é menor do que as pessoas imaginam. Por outro lado, muito maior foi a ampliação dos benefícios de seguro desemprego, em que as pessoas passaram a receber valores maiores desse seguro por mais tempo e tendo de trabalhar menos tempo para conseguir recebê-los. Resultado, menos gente procurando emprego, menos taxa de desemprego, mas sem que isso significasse mais gente trabalhando. Como as contas públicas pioraram, o Governo foi forçado a reverter parte dessas ampliações dos benefícios do seguro desemprego. O processo assim se inverteu, o desemprego cresceu mais, simplesmente porque as pessoas que antes não estavam trabalhando, mas não estavam procurando emprego, agora procuram emprego..

PME NEWS - Qual a melhor hora para inovar?

Ricardo Amorim

A melhor hora de inovar é SEMPRE. Se esperar pelo momento em que não há mais escolha, ou inovamos, ou morremos, talvez não dê mais tempo, talvez a inovação não apareça a tempo. Por outro lado, achar que na hora de crise é hora de deixar de investir em inovação, porque a situação está mais difícil, é um erro e muitos dos casos de sucessos das empresas mais bem sucedidas no mundo vieram exatamente das inovações que aconteceram na crise. Cito três exemplos:

Na crise de 1929 a IBM, ao contrário do que se esperava, aumentou o investimento em pesquisa e desenvolvimento, buscou inovar mais e conseguiu. O resultado foi que quatro anos depois, por conta da crise, o Governo Americano cria, pela primeira vez, um sistema de auxílio desemprego. Na época o desemprego chegou a bater quase 30% nos Estados Unidos, mais de 30 milhões de beneficiários, e só havia uma empresa que tinha sistemas que conseguiam, na época, lidar com base de dados desse tamanho, a IBM. A partir daí a empresa cresceu e cresceu muito e o sucesso da empresa, que é bastante conhecido, vem desse investimento.

Mais recentemente, dois dos maiores casos de sucessos empresariais dos últimos anos nasceram da crise de 2009 nos Estados Unidos. Refiro-me ao Airbnb, que vale R$ 110 bilhões e do Uber, que vale R$ 220 bilhões. Ambas nasceram com a crise e partem da ideia de que pessoas podem aproveitar recursos que estão parados para ganhar algum dinheiro. No caso do Airbnb é a sua casa e no caso do Uber, o seu carro. Quando as ideias surgiram, quem imaginaria colocar alguém na sua casa, ou algum desconhecido no seu carro? Só que com a crise, o desemprego subiu ao nível mais alto da história na Europa e ao segundo mais alto da história nos Estados Unidos, por consequência, muita gente ficou sem emprego, sem perspectiva, precisando de dinheiro e às vezes, com a casa vazia, ou com o carro parado, resolveram experimentar os serviços dessas duas empresas. Em função da crise, que o sucesso foi possível, mas a crise, somada à inovação, de buscar um modelo de negócio diferente, que pudesse aproveitá-la. E é exatamente o que a gente precisa tentar fazer no Brasil hoje. A crise pode sim trazer enormes oportunidades, acredito que R$ 220 bilhões é oportunidade suficiente, mas para quem for capaz de inovar, criar algo novo, algo melhor, algo diferente.

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