Jaques Haber i.Social

Foto: Divulgação/i.Social

Entrevista concedida pelo diretor do i. Social, Jcques Haber ao PME NEWS - Tema: “Inclusão social – Acessibilidade de pessoas com deficiência”.

PME NEWS – A lei das cotas contribui para a inclusão social de pessoas com deficiência?

Jaques Haber – i.Social

Certamente que sim. A Lei de Cotas (8.213/91) que instituiu a obrigatoriedade de empresas com 100 ou mais funcionários contratarem um percentual de colaboradores com deficiência foi e é o principal instrumento de inclusão.

Desde que ela passou a vigorar, cerca de 403 mil pessoas com deficiência foram incorporadas ao mercado de trabalho. Apesar do número expressivo, ainda é insuficiente, se pensarmos que a Lei de Cotas gerou cerca de 1 milhão de vagas.

O desafio é grande e apenas a entrada das pessoas com deficiência no mercado de trabalho não garante a inclusão de fato, mas sem a Lei de Cotas não estaríamos nem próximos destas conquistas.

O desafio agora, além de ampliar o número de pessoas empregadas, é criarmos novos instrumentos que garantam maior qualidade no processo de inclusão. As vagas ocupadas por pessoas com deficiência nas empresas ainda estão, em grande parte, localizadas na base da pirâmide organizacional.

PME NEWS – Como uma empresa deve estruturar um Programa de Inclusão para contratação de pessoas com deficiência?

Jaques Haber – i.Social

A inclusão de colaboradores com deficiência na empresa deve estar suportada por um Programa de Inclusão. A i.Social, baseada na inclusão de mais de 12.000 pessoas em cerca de 500 empresas de todo o país, desenvolveu uma metodologia que contempla quatro eixos estratégicos para estruturar um Programa de Inclusão Sustentável.

O primeiro módulo é estrutural, no qual entendemos a realidade da empresa. A partir daí realizamos análises de acessibilidade, mapeamentos de cargo e, com base nestas informações, iniciamos o recrutamento e seleção.

O segundo eixo é o módulo cultural, em que atuamos com os diversos públicos da empresa, desde colaboradores, RH, gestores e alta liderança, por meio de palestras e treinamentos para informar e conscientizar cada colaborador sobre o papel de cada um neste processo.

Simultaneamente trabalhamos o módulo comunicação, desenvolvendo conteúdo  para cada canal de comunicação da empresa e também cartilhas específicas para cada público com informações que auxiliam os colaboradores.

E por último desenvolvemos ações para o módulo retenção com o objetivo de trabalhar a carreira e retenção dos profissionais com deficiência.

Recentemente lançamos um e-book direcionado aos profissionais de recursos humanos que precisam incluir PCDs em seus quadros de colaboradores. O material apresenta informações estratégicas para que esse público possa implementar um Programa de Inclusão com qualidade nas empresas onde trabalham e pode ser baixado gratuitamente no site http://recrutamentodedeficientes.com.br/

PME NEWS – Como funciona o processo de substituição de um profissional com deficiência?

Jaques Haber – i.Social

Um profissional com deficiência, independente da Lei de Cotas, pode ser demitido normalmente, assim como acontece com qualquer outro profissional. Muitas empresas têm receio em realizar tal procedimento, principalmente quando estão no limiar ou abaixo da cota necessária.

Existe, entretanto, um procedimento específico nestes casos que a empresa deve adotar que é a substituição de uma pessoa com deficiência por outra, ou seja, antes de demitir um profissional com deficiência, a empresa deve contratar outro, de forma a não deixar sua cota abaixar.

PME NEWS – Há diferenças salariais entre profissionais que exercerem a mesma função, porém, com  tipos de deficiência diferente? E se comparado com pessoas sem deficiência?

Jaques Haber – i.Social

A legislação trabalhista não permite diferenças salariais entre profissionais que exerçam a mesma função. O que vemos atualmente no processo de inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho é que as vagas oferecidas a estes profissionais são pouco atrativas, na maior parte das vezes operacionais e com baixos salários.

Outro problema é que as pessoas com deficiências mais severas, como cadeirantes, cegos, surdos totais, pessoas com deficiência intelectual e deficiências múltiplas, encontram pouquíssimas oportunidades de trabalho.

As vagas destinadas ao cumprimento de cotas são direcionadas, na grande maioria, para pessoas com deficiências leves, que não requerem investimentos em acessibilidade, tecnologia ou aculturamento interno.

Também temos visto que as empresas têm focado suas ações de inclusão na contratação e pouco têm investido na retenção e em planos de carreira para esses profissionais, causando uma situação de exclusão dentro da própria empresa.

PME NEWS – Quais são os benefícios de contratar pessoas com deficiência?

Jaques Haber – i.Social

Equipes mais diversas tendem a ser mais cooperativas e solidárias, a partir da convivência entre pessoas com experiências de vida diferentes.

Estas diferentes experiências contribuem também para um pensamento mais amplo e rico, pois cada problema, produto ou serviço é discutido por pessoas que possuem visões, valores e ideias diferentes, o que contribui para soluções e resultados melhores.

Pessoas com deficiência tendem a ser mais fortes, pois estão acostumadas a lidar diariamente com desafios impostos pelas suas próprias limitações, o que as credencia a gerenciar melhor as questões do cotidiano do trabalho.

É percebido também entre equipes que possuem pessoas com deficiência um nível menor de insatisfação, já que essas pessoas tendem a reclamar menos de problemas ao conviver com pessoas que possuem limitações maiores.

E, por último, quando a pessoa com deficiência é contratada com foco exclusivo na cota, deixa-se de dar atenção aos potenciais da pessoa e não se aproveita ao máximo esta força de trabalho.

Existem muitas empresas que contratam pessoas com deficiência e colhem os benefícios dessa prática – a exemplo das companhias que participaram recentemente do Prêmio “Melhores Empresas para Trabalhadores com Deficiência”, idealizado pela i.Social e realizado anualmente pela Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo.

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